4.22.2006

O Rascunho cresceu e este blog já não faz sentido.

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2.07.2006

Memoirs of a Gueisha - Memórias de uma Gueixa (2005)

Uma obra tecnicista de Rob Marshall, que conta a história de uma gueixa na primeira metade do século XX, baseado na obra de Arthur Golden, um best-seller do final da década de 90.

Chiyo provém de uma família muito pobre e é vendida aos 9 anos juntamente com a sua irmã para se tornar uma gueixa. Desrespeitada e maltratada, é resgatada pela dona de um outro bordel rival, ajudando-a a tornar-se numa das mais conhecidas e influentes gueixas de todo o Japão. Pelo meio, é servida uma história de amor pura e temperos da II Guerra Mundial.

Um filme que ganha mérito pelo tecnicismo com que foi filmado. Uma equipa de produtores de renome, onde se inclui Steven Spielberg, um leque de actores reconhecidos internacionalmente e um realizador premiado, transformam em imagens deslumbrantes e hipnotizantes a fábula de Arthur Golden, que vendeu quatro milhões de cópias em Inglês, foi traduzido em 32 línguas, mantendo-se dois anos na lista de best-sellers do New York Times. Contudo, as óptimas interpretações, a fotografia deslumbrante, o guarda-roupa fantástico e banda sonora envolvente, não fazem, por si só, um bom filme. O romance em jeito de novela é chato. Uma história de amor proibido, quase platónica, que se arrasta no filme incessantemente, agradará a alguns, mas foi o véu que se levantou sobre o mundo das gueixas, pouco conhecido entre nós ocidentais, o ingrediente que me amarrou. Mulheres desde muito jovens criadas para se tornarem artistas, enterteiners e objectos de desejo, erradamente associadas apenas à prostituição.

Não surpreende nem entusiasma. É, acima de tudo, um filme visual sobre um mundo «tão proibido quanto frágil», feito claramente para o público ocidental.

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Jarhead - Máquina Zero (2005)

O absurdo da guerra é a receita grelhada por Sam Mendes, numa adaptação da autobiografia do fuzileiro Anthony Swofford: Jarhead, palavra para fuzileiro, com base no corte de cabelo comum entre estes.

Humor negro em doses aprazíveis, uma pitada de surrealismo, tragédia e disparates num prato bem servido, ainda quente, no ponto para ser devorado. Enquanto saboreamos as delícias desta especialidade, debatemos o que já havia sido tido como certo anteriormente: Sam Mendes teve o azar – ou sorte – de entrar com o pé direito na cozinha profissional com a fantástica receita de American Beauty. Qualquer prato servido depois deste delicioso manjar poderá parecer insosso.

Jake Gyllenhaal é Swofford, um jovem que 'se enganou a caminho da faculdade' e se alistou no exército. ‘Swoff’ conta-nos na primeira pessoa as suas bizarras experiências na recruta e em missão na Guerra do Golfo. Reflexões de um soldado como tantos outros que se sujeitaram a uma recruta intensiva para se deslocarem até um país que não compreendem, para enfrentar um inimigo que nunca viram, por uma causa que não conseguem explicar ou simplesmente lhes passa ao lado.

Um filme ligeiro, com um humor sarcástico que devoramos bem. Divertimo-nos com as peripécias de Swoff – entediado pela monotonia – e dos seus companheiros, bizarras, por vezes tocantes. Um filme de guerra sem batalhas nem heróis, onde é apresentada uma compilação do que já vimos em grandes clássicos, como o surrealismo irónico e mais risível de Apocalypse Now, a recruta severa de Full Metal Jacket, ou até as longas e incessantes caminhadas no deserto do mais recente Three Kings. A fotografia infalível e actores no auge das suas capacidades – Gyllenhaal e Jamie Foxx – são ingredientes de peso. Só lhe faltou a ligação ao íntimo, às emoções, tocar, envolver o espectador.

Um retrato irreverente de uma guerra que aconteceu há mais de uma década. Um filme ligeiro em que Sam Mendes apenas 'pica o ponto' mostrando polivalência e lembrando o público que ainda existe.


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O Crime do Padre Amaro (2005)

Este filme é já um vencedor, apesar do que possa ser dito. Em 2005, esta adaptação livre do romance de Eça de Queirós levou milhares de espectadores às salas de cinema, com números que nenhum filme português conseguiu superar. Uma febre, fruto de uma bem sucedida campanha publicitária, onde era exaltada a provocação e irreverência desta obra, destacando as cenas eróticas entre Soraia Chaves e Jorge Corrula, protagonistas do filme e estreantes na sétima arte.

Amaro é o novo padre acabado de sair do seminário, que chega a uma paróquia problemática, tomada pela delinquência. Contudo, o verdadeiro problema que Padre Amaro enfrenta é a difícil tarefa de resistir à tentação de manter o celibato quando conhece Amélia, uma bela e sensual jovem que dorme no quarto ao lado.

É um filme tosco, com muito fogo de vista. Eça de Queirós deve estar a rebolar no túmulo. Um dos seus mais conhecidos romances é assassinado e usado como pretexto sensacionalista para vender esta obra despropositada. De entre o elenco de luxo, Nuno Melo será um dos poucos com uma interpretação digna de destaque. Grande parte dos actores presentes terão sido escolhidos pela sua fama em detrimento da capacidade de interpretação. A história é vazia, com conteúdos mistos de uma cultura urbana actual, situações de extremo e personagens estereotipadas. A verdade é que não existe nenhuma fundamentação lógica que justifique o sucesso alcançado a não ser os seios e nádegas de Soraia Chaves. Não é uma obra mal filmada ou maçadora, até chega a ter alguns pormenores agradáveis de realização e edição, poucos, nada que seja digno de grande destaque. A ideia da modernização do romance de Eça é apelativa, mas não nestes moldes.

Carlos Coelho da Silva é o realizador de serviço deste projecto que mais tarde dará lugar a uma mini-série. A triste verdade é que este filme representa um pouco o que o povo quer e não o que o povo precisa. É penoso ver filmes como este ter uma enorme divulgação e aceitação por parte do público, como que incentivando o apoio à produção de ainda mais filmes medíocres, não deixando o cinema português evoluir e ter uma real qualidade.


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Um Tiro no Escuro (2005)

Um bebé é raptado por uma hospedeira de voo portuguesa no aeroporto do Brasil. Anos depois, a mãe da criança ganha a vida numa casa de strip-tease em Lisboa, passando grande parte do dia no aeroporto, na esperança de reencontrar a hospedeira. Quis o destino que se juntasse a um gang de assaltantes, envolvendo-se numa sequência de assaltos a bancos, que põe a judiciária no seu encalço.

Uma Produção de Tino Navarro, realizada por Leonel Vieira, actualmente um dos realizadores portugueses no activo com mais potencial. Um enredo minimamente bem concebido por Jorge Almeida, sem grandes pretensões, suficientemente eficaz para agarrar o espectador, apesar de ser algo desajeitado. Uma narrativa com ritmo dinâmico, poucos momentos mortos, apelando à objectividade, ao contrário do que caracteriza muitos filmes portugueses, que optam por um ritmo pausado e à introspecção de difícil consumo. Este é antes um filme para as massas, mas com cara séria, ao contrário do que acontece com Sorte Nula, por exemplo.

Esta obra sofre de um mal comum a quase todo o cinema português: a falta de capacidade de interpretação do leque de actores. A artificialidade de alguns diálogos é verdadeiramente incomodativa. Nem mesmo os actores de renome conseguem dar credibilidade suficiente à história. A realização hollywoodesca e algo canónica de Leonel Vieira é eficaz, mas não impede que o tiro passe ao lado.

No final o filme acaba por ser uma alternativa aos filmes americanos do género, um policial frouxo de estereótipos, que consegue entreter e surpreender alguns, ficando atrás do excelente policial português de 2003, Os Imortais.

Revolver - Revólver (2005)

Guy Ritchie. O actual marido de Madonna e realizador dos filmes de culto Snatch e Lock, Stock and Two Smoking Barrels e do flop Swept Away, está de volta. A pergunta que todos fazem é: será que está de volta em grande? Ora aqui está uma pergunta difícil de responder.

Todos os fãs e adeptos da obra de Guy gostavam que ele voltasse ao velho estilo da comédia burlesca, com gangsters, sotaques acentuados, personagens caricatas e reviravoltas estonteantes. Aqui a premissa é interessante: Jake Green (Jason Statham) é um jogador que esteve preso durante 7 anos por ter caído nas tramas de Dorothy Macha (Ray Liotta). Agora em liberdade, Jake torna-se imbatível nas mesas de jogo usando uma fórmula que aprendeu com o ex-companheiro de prisão, estando preparado para a vingança.

A capacidade criativa de Guy Ritchie está presente. Não é de surpreender que a melhor cena do filme envolva uma troca de tiros, surpreendentemente editada e suavizada num estilo muito próprio. Jason Statham como o claustrofóbico Jake, Ray Liotta na pele do instável Macha, Vincent Pastore e até mesmo André Benjamin, assim como todos os outros merecem um polegar para cima.

A declarar: gangsters, algum sotaque acentuado, personagens caricatas, reviravoltas estonteantes e menos comédia e humor negro que o habitual. Estaria Guy de volta? Sim, mas mais ambicioso. Numa segunda parte do filme são introduzidos elementos estranhos ao que esperaríamos de Guy. A sensação de que não seria um filme directo, com o uso de diversos recursos estilísticos para fazer passar a mensagem, metáforas, alegorias, numa tentativa de criar uma obra mais conceptual mostra a vontade de Guy crescer, dar um grande passo. Precisaria Guy dar esse passo? O filme é como que uma espiral vertiginosa. A velocidade aumenta exponencialmente em direcção ao infinito, entrando em colapso. A desconstrução do tabuleiro de xadrez, onde cada peça é perigosa e cada jogada pode mudar o rumo da maré.

Vestígios de Fight Club, Adaptation e The Usual Suspects, com uma pitada de Tarantino e de Lynch, com o modos operandi de Guy Ritchie. Uma experiência atordoante. Gosto de pensar que gostei, que recomendo. Mas não tenho a certeza. A dúvida permanece: será que Guy voltou em grande?

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The Constant Gardener - O Fiel Jardineiro (2005)

Baseado no best-seller homónimo de John Le Carré, O Fiel Jardineiro é um thriller realizado por Fernando Meirelles, famigerado autor de Cidade de Deus.

Ralph Fiennes é Justin Quayle, diplomata inglês no Quénia: homem reservado, que segue todas as regras, sendo a jardinagem o seu principal hobby. Rachel Weisz é Tessa, sua mulher: uma voz activa contra a opressão dos países industrializados e das grandes empresas contra os países do terceiro mundo. Um casal contrastante, numa obra de contrastes: política, amor e a busca pela verdade são os pratos servidos. Tess acaba por sofrer as consequências pela sua tentativa de tornar público a exploração imoral da indústria farmacêutica nesse mesmo país.

Despido de efeitos especiais que custam milhões, é-nos apresentado um thriller político inteligente, provocante e comovente, com um poder avassalador. Com a realidade queniana como pano de fundo, somos confrontados com imagens brutais da realidade dos países de terceiro mundo. Assim como em Cidade de Deus, a auto-descoberta, a reflexão, o amor e justiça estão bem presentes.

As interpretações de Fiennes e Weisz são de um calibre assombroso que se convergem perfeitamente com Fernando Meirelles e o seu estilo cinematográfico: o abuso da handycam em estilo de documentário, a edição agressiva, e a fotografia ocre e granulada que dão um toque de realismo tocante ao filme.

Fernando Meirelles confirma-se como um exímio contador de estórias. Com galardões recolhidos em já diversos festivais de cinema, será provavelmente uma aposta segura de que esta obra entrará na corrida aos Óscares.

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Grizzly Man (2005)

Realizado pelo alemão Werner Herzog, Grizzly Man é uma amostra da vida e morte de Timothy Treadwell, que decidiu estudar e viver com ursos-pardos no Alasca, depois da recuperação de uma overdose grave, tornando-se um especialista amador e defensor convicto da vida animal.
Numa altura em que os documentários estão a ganhar o seu espaço nas salas de cinema, Grizzly Man surge em território nacional já com alguns galardões em festivais de cinema. Composto maioritariamente por imagens captadas pelo próprio Treadwell ao longo dos vários anos, antes de ter sido morto por um destes animais, e complementado com entrevistas de pessoas que lhe eram próximas, Grizzly Man apela à sensibilidade e compreensão da vida de um homem aparentemente perturbado mas de bom coração.

O documentário parecia à partida ter um enorme potencial, mas as expectativas saem todas furadas. Nada neste documentário parece convencer. A começar pela narração, do próprio realizador, num inglês arranhado pelo sotaque alemão, que se torna irritante, risível, num discurso denotado de uma enorme falsa emotividade pela causa de Treadwell. As entrevistas parecem arrancadas à força, à espera de uma lágrima que emocione o espectador e a edição parece ter sido feita por um estudante de cinema ainda com muito para aprender. O próprio Treadwell acaba por ter uma imagem defraudada, depois de descobrimos que se escondia por trás de uma mascara de falsa solidão, em busca de maior compreensão do mundo exterior. Salvam-se algumas imagens captadas por Treadwell da natureza no seu estado puro e do seu aparente verdadeiro amor pela causa, sem dúvida o melhor do filme.

Ao contrário da Marcha dos Pinguins, que é um belíssimo documentário, esta acaba por defraudar todas as expectativas. Existem histórias reais que suplantam em muito alguns argumentos saídos da cabeça de algumas mentes engenhosas. Contudo a verdadeira história de Treadwell acaba por não ser uma dessas histórias, talvez por culpa dele ou desta fraca obra.

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Saw II - A Experiência do Medo (2005)

Oh, sim... Vai haver sangue. Esta é a premissa do filme Saw II, a sequela do filme que surpreendeu muita gente no ano passado, pelo visual arrojado e argumento engenhoso. O argumento é novamente de Leigh Whannell, mas a realização esteve agora a cargo de Darren Lynn Bousman que sucede a James Wan, com uma estratégia semelhante, mas visualmente menos arrojada.

Jigsaw, agora debilitado pelo cancro que o consome, deixa-se apanhar pela polícia, mas rapidamente descobrimos que nem tudo é o que parece. Jigsaw revela que ainda existem pessoas enclausuradas em local incerto a sofrer as consequências dos seus enigmas diabólicos.

A fórmula é a mesma do primeiro filme. Cortar a respiração ao espectador, arrepiar e surpreender. Uma sequela de qualidade inferior ao original, é verdade, mas que cumpre todos os objectivos a que se propõe. As situações extremas de sobrevivência que dão lugar a cenas violentas e arrepiantes abundam no filme. Era isto que o público pedia: mais do mesmo. E assim foi. Sangue e mortes horríveis que poderiam ser evitadas se as regras de Jigsaw fossem cumpridas. Uma experiência de medo que tem o mérito de ultrapassar a tela e atingir os espectadores.
Contudo, o filme consegue cativar apenas os fãs do primeiro filme, não mais do que isso. Não tem ambição de atingir um novo público, no máximo consegue criar curiosidade em relação ao fenómeno do primeiro filme. Os actores continuam a ser fracos com interpretações pobres de personagens mais vazias que as do primeiro filme. O twist final poderá ser melhor, mais surpreendente, mas um pouco forçado a abrir portas a um terceiro filme. O balanço acaba por ser positivo. É uma sequela à altura, tendo em conta que quase por regra as sequelas são muito mais fracas que o filme original.

Será que vamos ter Saw III, IV e assim sucessivamente, repetindo os fenómenos dos slasher movies dos anos 80 como Sexta-Feira 13, Halloween, ou Pesadelo em Elm Street?

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12.26.2005

Corpse Bride - A Noiva Cadáver (2005)

A Noiva Cadáver é uma obra de um esplendor visual extremamente cativante, saída do imaginário de Tim Burton, senhor que já nos habituou a um mundo muito próprio de fantasia, não deixando de nos surpreender.

Mais de uma década depois de The Nightmare Before Christmas, Tim Burton cria, mais uma vez, uma bela peça de animação. Os clássicos negros, ocultos e românticos são novamente a opção de Burton, dando continuidade à tradição iniciada com filmes como Edward Scissorhands. Baseado num conto popular russo, A Noiva Cadáver conta a história do desajeitado e tímido Victor, que se vê envolvido numa embrulhada, paralelamente no mundo dos vivos e dos mortos, onde em ambos os lados faz o papel de noivo. Uma história de contrastes num mundo de contrastes, em que os mortos vivem num ambiente muito mais festivo e alegre, em oposição aos vivos que parecem deambular por um mundo escuro e triste. As personagens e os ambientes tão característicos do imaginário de Burton ganham vida novamente através da animação stop-motion, em alternativa à cada vez mais prolífera animação gerada por computador.

Foi no entanto o realizador Mike Johnson e a sua equipa de animadores quem mais contribui para o parto desta obra, já que Tim Burton estava essencialmente nas rodagens de Charlie and the Chocolate Factory. Tal como este, Corpse Bride impressiona essencialmente pelo aparato visual, em detrimento da história, que é aqui completamente remetida para segundo plano, ficando aquém da fantástica fábula adulterada de The Nightmare Before Christmas.

As imagens são fantásticas. Sim, fantásticas, deslumbrantes, impressionantes. É quase inacreditável que tais imagens sejam reais. Ainda que utilizada tecnologia de ponta para a criação dos bonecos robotizados, de forma a facilitar o trabalho dos animadores, é de louvar a opção de Burton e da sua equipa pela animação tradicional frame a frame, com modelos das personagens e cenários físicos em detrimento dos virtuais, usados apenas quando estritamente necessários.
A composição musical está novamente a cargo de Danny Elfman, que frequentemente coloca os espectadores a cantarolar as suas composições muito depois da visualização do filme, noutras obras. Aqui, a composição tem potencial. A ver vamos se me apanho inconscientemente a cantarolar temas da Noiva Cadáver, daqui a uns tempos.

Não houvesse uma comparação possível às suas obras anteriores, especialmente a The Nightmare Before Christmas, e Corpse Bride teria sem dúvida agarrado muito mais pontos e alcançado um patamar mais alto. Mas recomenda-se! Dance com esqueletos, largue um sorriso grande e deleite-se com a bela visão da vida para além da morte.

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Broken Flowers - Flores Partidas (2005)

Sereno, pacífico e enigmático: assim é Broken Flowers, a mais recente história do homem das conversas de café, Jim Jarmusch, vencedor do grande prémio do Júri em Cannes de 2005.

Don Johnston (Bill Murray) é um solteiro já com alguma idade em cima, que acaba de ser abandonado pela sua última namorada. Nesse mesmo dia recebe uma misteriosa carta cor-de-rosa, de uma antiga namorada que se manteve anónima, informando-o de que tem um filho de 19 anos que poderá andar à procura do pai. Empurrado pelo seu amigo Winston (Jeffrey Wright), Don embarca numa viagem pelo país, visitando as suas antigas namoradas, confrontando o passado, na busca de pistas sobre o seu hipotético filho.

Bill Murray é perfeitamente talhado para a sua personagem. Tal como em filmes anteriores, Murray interpreta um homem solitário, de certa forma alienado do mundo que o rodeia. Jeffrey Wright volta a surpreender pela sua multiplicidade e capacidade de representação. Depois de o ver como o artista Basquiat, ou o enfermeiro gay em Anjos da América, Wright é agora um detective amador e homem de família, dando um toque especial ao filme. O resto do elenco também merece destaque: Sharon Stone, Julie Delpy, Chloë Sevigny, Christopher McDonald e Tilda Swinton entre outros, que completam um lote de personagens bem distintas e peculiares.

Um filme inofensivo, com um sentido de humor aprazível e uma banda sonora deliciosa. O final irrompeu quando estava pronto para mais, mas foram um deleite todos – ou quase todos – os minutos que precederam o final.

Uma viagem agradável para ver a sorrir e soltar uma ou outra gargalhada. Para ver sozinho ou acompanhado, num dia de chuva ou de sol. Broken Flower recomenda-se: em dose moderada, de espírito aberto.


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Spun - Viagem Radical (2002)

O realizador sueco Jonas Åkerlund estreia-se nas longas-metragens com este Spun, depois de uma vasta experiência na realização de vídeos musicais. Trabalhou com músicos como Roxette, Prodigy, Madonna, Metallica, Jamiroquai, Iggy Pop, Moby, Lenny Kravitz e The Smashing Pumpkins só até à data de realização desta obra.

Spun é um filme sobre o mundo das drogas, de um ponto de vista excessivo e perverso. Ross, interpretado por Jason Schwartzman, é um toxicómano que começa a colaborar com o seu fornecedor de drogas, The Cook (Mickey Rourke), e a sua namorada Nikki (Brittany Murphy) em troca de mais produto. Ao longo de três dias vê-se envolvido numa espiral alucinante no mundo da droga.

Um filme carregado de humor negro, onde o realizador tenta reflectir visualmente e auditivamente os efeitos da droga, com cortes rápidos, surreais e uso de diversas técnicas e efeitos de câmara, com uma cronologia de acontecimentos linear, mas com recurso a flashbacks estonteantes. A comparação a Requiem for a Dream de David Aronofsky, realizado dois anos antes, é inevitável. Ambos abordam o cosmos da droga de uma forma visual bastante semelhante, perversa e negra. No entanto, quero acreditar que Jonas Åkerlund não foi directamente influenciado pela obra de Aronofsky, antes aplicou as técnicas que sempre utilizou nos seus vídeos musicais, como Smack My Bitch Up de Prodigy, datado de 1997, e Try, Try, Try de The Smashing Pumpkins, em 2000.

Billy Corgan selecionou a banda-sonora do filme, com recurso a diversos songwriters, Zwan e Ozzy Osbourne, entre outros. Podemos ainda ver e ouvir algumas referências ao black metal sueco, certamente como referência às raízes suecas do realizador.

Uma obra interessante que ganha pela sua dimensão visual e humor negro, onde se destaca a interpretação de Jason Schwartzman. Para os fãs de filmes sobre droga é certamente um must, não destronando, contudo, Requiem for a Dream e Trainspotting.

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Scanners (1981)

Esta é mais uma obra da extensa filmografia do canadiano David Cronenberg, o primeiro da década de 80, precendendo a Videodrome e The Fly, duas das suas obras mais aclamadas. Reflecte um género muito próprio que desenvolveu em muitas das suas obras, com recurso frequente a imagens repugnantes, sendo uma das referências do cinema gore.

Em Scanners, um homem, com capacidades telepáticas, é treinado e enviado para procurar outros como ele, pessoas com capacidades psíquicas paranormais, chamados de scanners. As interpretações são algo fracas, exceptuando a de Michael Ironside, como o scanner maléfico e poderoso, que consegue realmente uma interpretação convincente.

Escrito pelo próprio Cronenberg, o argumento não é particularmente bom, mas reflecte a cinematografia que havia desenvolvido no passado e que iria ainda desenvolver em obras posteriores: aberrações biológicas apresentadas de uma forma por vezes grosseira, com recurso ao sangue e entranhas em quantidade.

No início do filme uma das cenas mais marcantes e horripilantes a que já assisti, frequentemente catalogada como uma das cenas mais horrorosas da história do cinema: o rebentamento de uma cabeça perante uma audiência. Uma espreitadela aqui. Tenho dito.

12.10.2005

The Exorcism of Emily Rose - O Exorcismo de Emily Rose (2005)

Engane-se quem pensa que este é mais um filme de terror paranormal, onde a componente visual é forte e os calafrios surgem pela eminência do susto. O filme tem de facto essa componente, mas em doses pequenas, acabando por se distanciar de outros filmes do género.

Scott Derrickson conta a sua versão (altamente adulterada) da verdadeira história de Anneliese Miche, uma adolescente a quem foi reconhecida oficialmente pela igreja uma possessão demoníaca na Alemanha na década de 70. Nesta versão é Emily, nos Estados Unidos de hoje quem sofre a possessão. A acção do filme desenrola-se maioritariamente em tribunal, estando o padre que realizou o exorcismo acusado de negligência pela morte de Emily Rose. À medida que vão sendo ouvidos os diferentes depoimentos visitamos o passado e os diferentes episódios de possessão de Emily, aqui, usando uma retórica visual já conhecido no género de filmes de terror paranormal.

O filme ganha essencialmente por ser diferente e de certo modo cativante. Uma versão menos lúdica do The Exorcist, apresentando-nos diferentes pontos de vista sobre o verdadeiro estado de Emily, e quais as razões para o aparente estado de possessão. O elenco era forte, com Tom Wilkinson e Laura Linney nos principais papéis, mas as suas interpretações acabam por ser rústicas e o uso das mesmas técnicas de susto de sempre e cenas redundantes em tribunal acabam por desiludir e não tornar este um filme de topo.

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12.08.2005

Jacob’s Ladder - BZ, Viagem Alucinante (1990)

Escrito por Bruce Joel Rubin e realizado por Adrian Lyne, Jacob’s Ladder é uma referência no género de cinema do fantástico e do thriller/mistério psicológico.

Tim Robbins é Jacob Singer, um veterano da guerra do Vietname, que passa por momentos traumatizantes na sua vida pós-guerra. Jacob vê-se perseguido por criaturas estranhas e começa a ter pesadelos do tempo de guerra. Rapidamente está em fuga, sem saber em quem confiar, ou distinguir a realidade da imaginação. Por detrás disto parece estar uma conspiração do governo e experiências químicas em tempo de guerra.

O argumento, carregado de detalhes bizarros, aumenta a curiosidade no espectador, que acaba por se perder com Jacob, sem saber em quem confiar, o que é real e qual será o desenlace. Um filme que cria eficazmente uma sensação de paranóia, medo e desorientação, com uma componente visual que marca presença.

A certa altura, um amigo de Jacob cita Eckhart, resumindo eficazmente, sem estragar surpresas, o percurso do filme:

If you're frightened of dying and...
and you're holding on,
you'll see devils tearing your life away.
But if you've made your peace,
then the devils are really angels,
freeing you from the earth.

O título do filme faz uma alusão à história da escada de Jacob, que figura na bíblia, uma escada que dava acesso ao céu. O título português é um daqueles casos em que nos questionamos sobre a habilidade dos responsáveis portugueses pela tradução dos títulos de filmes estrangeiros. Se por vezes fazem uma tradução à letra, noutras o título é completamente despropositado. ‘BZ, Viagem Alucinante’ faz alusão à droga BZ supostamente usada pelo exército em experiências no Vietname. Acaba por um ser título justo, mas contentava-me com ‘A Escada de Jacob’, já que é esta a metáfora que possivelmente decifra o filme.

Sendo um pouco impreciso, o filme acaba por não agradar a todos. Contudo, mais recentemente, filmes como The Sixth Sense (1999), Donnie Darko (2001), The Jacket (2005), The Machinist (2004) ou até mesmo a famigerada série X-Files, acabam por ser de alguma forma descendentes deste filme de Lyne. De realçar a fantástica performance de Tim Robbins, como o desorientado, paranóico e alucinado Jacob.

@ Rascunho